Cortázar me chamou da chuva. Fiz cu doce, estava insuportavelmente limpinha.
Ele dizia deitado no sofá enquanto eu coava café: você precisa sair da zona de conforto. Essa zona é uma porra que te fode a mente, por trás, com violência, sem consentimento.
Desse dia em diante me sujo com toda sorte de gente pelas esquinas do mundo. Demoli a casa dos meus pais, matei a TV a pauladas, rasguei meu Registro Geral, nem sei mais qual minha nacionalidade e se me perguntam: natural de onde? respondo: Heráclito. Eu gosto da chuva.
Vivo de reciclar: sapatos, livros, camas, hábitos...
Minha imaginação abre qualquer segredo no mundo.
trago na carteira um bilhete dele que diz assim:
-, ninguém enriquece com a literatura se ao mesmo tempo não for capaz de chupar um pêssego aproveitando a mão livre para levá-lo a boca, se não fizer amor entre duas páginas, se não se debruçar na janela para saber que durante o último mês cinqüenta crianças morreram queimadas na região se Saigon, e que em Biafra os nigerianos ajudados pelo nobilíssimo Reino Unido degolaram todos os pacientes de um hospital; será preciso repetir, professor Papalino Zeta, que a literatura não é um terreno privilegiado no sentido escapista que tanto convém e adorna? Biafra e o erotismo, a chuva de napalm e os Jogos Venezianos de Lutoslawski: a poesia continua sendo a melhor possibilidade humana de realizar um encontro que ninguém descreveu melhor que Lautréamont e que pode fazer do homem o laboratório central de onde algum dia sairá o definitivamente humano, a menos que antes disso todos nós tenhamos ido para a casa do caralho.(NOTÍCIAS DO MÊS DE MAIO)
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texto do blog 'Dedos não Brocham'






