Strawberry Fields

domingo, 15 de novembro de 2009

Cortázar e Minha-imaginação-abre-qualquer-segredo-no-mundo






Cortázar me chamou da chuva. Fiz cu doce, estava insuportavelmente limpinha.

Ele dizia deitado no sofá enquanto eu coava café: você precisa sair da zona de conforto. Essa zona é uma porra que te fode a mente, por trás, com violência, sem consentimento.

Desse dia em diante me sujo com toda sorte de gente pelas esquinas do mundo. Demoli a casa dos meus pais, matei a TV a pauladas, rasguei meu Registro Geral, nem sei mais qual minha nacionalidade e se me perguntam: natural de onde? respondo: Heráclito. Eu gosto da chuva.

Vivo de reciclar: sapatos, livros, camas, hábitos...

Minha imaginação abre qualquer segredo no mundo.

trago na carteira um bilhete dele que diz assim:

-, ninguém enriquece com a literatura se ao mesmo tempo não for capaz de chupar um pêssego aproveitando a mão livre para levá-lo a boca, se não fizer amor entre duas páginas, se não se debruçar na janela para saber que durante o último mês cinqüenta crianças morreram queimadas na região se Saigon, e que em Biafra os nigerianos ajudados pelo nobilíssimo Reino Unido degolaram todos os pacientes de um hospital; será preciso repetir, professor Papalino Zeta, que a literatura não é um terreno privilegiado no sentido escapista que tanto convém e adorna? Biafra e o erotismo, a chuva de napalm e os Jogos Venezianos de Lutoslawski: a poesia continua sendo a melhor possibilidade humana de realizar um encontro que ninguém descreveu melhor que Lautréamont e que pode fazer do homem o laboratório central de onde algum dia sairá o definitivamente humano, a menos que antes disso todos nós tenhamos ido para a casa do caralho.(NOTÍCIAS DO MÊS DE MAIO)


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texto do blog 'Dedos não Brocham'

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Give me fuel, give me fire




'Metallica é cru e me come sem garfos. Sim, isso que eu vivo é whisky e me enche a cara. A única regra é desdobrar as mágoas do corpo. Matem as tristezas enjauladas, libertem o que foi enterrado em mim!
Por dentro sou mais mulher que a fera agora solta. Me olhando na cara, com a cara em frente a minha boca, sou o que não pode se esconder atrás de uma garrafa de vinho. O rótulo desgruda e o vidro corta o chão ao ser tocado. Mas eu, eu recebo, acolho, agarro, e quem é que me desvia do olhar revoltado? Tão mais humana, tão mais animal, tão mais com veias, sangue e pintas pelo corpo. Tudo e menos nada. A metade me sobe pelas pernas, como eu disse. E eu faço um rasgo para caber sentir de maneira inteira. Mais carne que sal, mais fogo na churrasqueira. E eu sei.
E se for falar que eu tô errada, primeiro saiba que já subi e desci todas as paredes sujas da cidade. Se for dizer que me ama, coloque minha raiva no colo e faça ninar. Se quer que eu confie, aqueça a raíz da minha barriga sem ter que me deixar. Aflorar não é fácil como cair de todas aquelas escadas por onde nunca escapei. Eu encarei cada uma daquelas ruas, e buracos, e lixeiras, e rímel borrado no lençol branco. E eu já sei. Eu já sei, meu querido, como é arder no céu, sem a leveza de levantar andando. Eu sempre corri. E assim cheguei até aqui.
Dentro, me olhando pelos olhos, eu sou mais mulher que medo. E estou arriscando outra vez. Porque gosto.
E esse é o meu fogo.




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domingo, 8 de novembro de 2009

Porcelana Quebrada




Como um carro que nunca chega ao limite da velocidade máxima, cobrei-me respostas que não viriam de jeito nenhum. E eu sei que é assim, mas não evito a lembrança. Chovendo São Paulo sem madrugada de ressaca; whiskey in the jair.
E o fato, o fato é que agora eu não estou metida num 'conto explosivo de amor bandido.' Mas alguma coisa, alguma coisa totalmente minha, me faz perguntar se o que eu estava fazendo era lutar sem armaduras. Se o fogo nas minhas mãos também queimava quem me tocava. Um vício de cair nos braços de um casaco vazio. Contradições de minha parte. Que eu não me arrependo. Só me digo, sem meias palavras, que me excedi para perder o freio da espera. Pois se algum dia, a minha intenção era ser a bonequinha de luxo da estante empueirada, mudei de idéia ao cair de cima. E nunca mais quis me imortalizar na figura da distância. Por isso cheguei perto. E cheguei tão perto que assustei.
O Amor Bandido não foi morto, nem detido, nem mesmo algemado. Ele continua solto por aí, cometendo as loucuras. Mas desta vez calado.


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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

carne sobre carne



Se você quer, se tenta representar tuas ambições através de sedas e coxas fotografadas como numa exposição de carnes podres, saiba, assim não dá para te ver andando ao meu lado. Pois meu corpo todo, minha alma inteira sussurra com os olhos fechados, com os lábios que entre abertos respiram estes ares do mundo.
Saiba, eu ouço uns versos de Bossa pela menhã, na minha pequena máquina de escrever que funciona como a vitrola e minhas frases que machucam e curam. Prefiro caminhar assim.
Não há porque ser - naquele papinho - metal sobre metal. Não há como ser uma criança, se eu não brinco mais com corações.



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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Barba de irlandês.




Aquele cara me agarrava com os dedos.
Metida num vestido preto como quem cantava em silêncio canções para serem despidas. Música de pegação, letra de cama bagunçada e cabelo comprido. Sei pois me olhava no espelho dos olhos daquele louco, rebelde de sociedade alternativa. Me cobria com as costas por cima, pernas em volta, cheiro de nuca amanhecida. O ritmo era de briga quando se faz as pazes ao som da madrugada; qualquer coisa um pouco no escuro, um pouco escondida que a gente só finge que esconde. Faz atrás da porta pela risada tampada em boca mordida. Dedos de poder na guitarra, cintura e subida. Sei por aquele segundo de abraço na barriga, quando a mente cala e o corpo grita.
Barba dura de irlandês no meu abismo.



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terça-feira, 3 de novembro de 2009

No piano das humanidades





"She makes mistakes.
She's a Mistake. A beatiful and crazy mistake."





Não me importo com a garrafa de whisky vazia, com meus seios fartos de palavras repetidas, com a utopia que sintetiza cada deslize, com os erros e a falta de medo de errar. Não sei dizer mais do que isso. Explicar outra vez a mesma coisa como se me colocasse noutro lugar. Espaço estúpido de mente e racionalização atarefada de não pensar. Como se isso realmente me fizesse parar de sentir, de analisar, de parir aquele calafrio de intensidade. Usurpando acertos para sorrir como se a minha arte fosse ser bonitinha e acertadinha. Não desviar o olhar dos olhos da imensidão, não me embebedar de discos que me fazem levantar, não chorar a vontade que ainda não passou; que continua latejante em mim.
Não estou preocupada com o carro batido, com a saudade ardida de algo que nem passou, com o problema sem solução, com o estômago que dói sem causa. Não estou me importando com porra nenhuma que venha num copinho para beber de 6 em 6 horas. Não sou remédio nem boca de quem é medicado. Me arranho por dentro numa coreografia de milhas e milhas de improvisação. E falo a verdade.
Não me preocupo com o cuidado que vem do céu quando a gente tá no inferno e sabe que é difente. Que é mais quente que esperar. Diferente de quem não tem voz, diferente de quem não tem coragem pra dar a cara pro mundo olhar, diferente de quem cai e depois pisa em cima; diferente como se o mundo estivesse girando e girando sem você. Você, como eu, que não liga pra regra de acertar em círculos, abre os braços pro tamanho infindável de não caber dentro do que você mesma sente. E diz com a cara aberta que sim. Você, maravilhosamente, erra.


































E assim eu comprei passagem às 9:00 da noite pra uma cidade distante. Simplesmente paguei pela que pudesse ir no ônibus mais vazio. Fui com a roupa do corpo e um dinheiro pra me virar. Sem dó, sem remorso, sem mastigar a situação. Me enfiei naquilo que sangrava tanto quanto eu, porque precisava de alguma realidade mais fantástica do que a que eu via com os olhos de lágrimas em palavras que saíam dos outros. Nada e ninguém poderia entender ou sarar [nesse ponto]. Do ponto em que chegou e que me colocou tão em baixo, pronta para estar em cima, enxergando tudo com a vista que ninguém mais tem. Prendendo o choro e sendo mais forte do que ontem. Mais forte do que tudo que já vi. Isolada, sozinha, errada. E agora, é apenas esse ônibus e

eu.





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sábado, 31 de outubro de 2009

Querer não tem forma. É a gente que transforma em mundo pra tentar engolir.

'O ímpeto de crescer e viver intensamente foi tão forte em mim que não consegui resistir a ele. Enfrentei meus sentimentos.
A vida não é racional; é louca. Quero paixão, prazer, barulho, bebedeira, e todo o mal. Quero ouvir música rouca, ver rostos, roçar em corpos, beber um Benedictine ardente. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas.
Quero morder a vida, e ser despedaçada por ela. Eu estava esperando. Esta é a hora da expansão, do viver verdadeiro.
Todo o resto foi uma preparação. A verdade é que sou inconstante, com estímulos sensuais em muitas direções.
Fiquei docemente adormecida por algum tempo, e entrei em erupção sem avisar'
- Anais Nïn
'Quando a alma é livre,não tem filho da puta que segure' - Lobão
Para quem me odeia:

Sei que você vive falando de mim por aí sempre que tem oportunidade, e esse tipo de propaganda boca a boca não tem preço. Ainda mais quando é enfática como a sua - todos ficam interessados em conhecer uma pessoa que é assim, tão o oposto de você.

- Fernanda Young